*
E aquele definitivamente seria o sorriso mais lindo que já vi. As palavras de agora são tuas. Palavras afetuosas, melancólicas, palavras culpadas. Em um certo tempo, em um certo espaço, houveram dias rosa, dias de uma grande janela aberta, braços abertos pra mim. Lembro-me de olhos famintos, sedentos e domesticados, olhos apaixonados, preparados apenas à espera. Tínhamos todo um mundo de purezas, de belas melodias, compleições celestiais que nos abençoavam, vivíamos de sorrisos e uma fonte perene daquela coisa que não sabemos ou não queremos nomear, mas que buscamos e que podemos morrer sem ao menos ter pistas do que seria. Eu estava tão perto do céu de baunilha naqueles dias rosa...
E então euzinha que tão pouco conhecia a mim, me achei em um dia amarelo, um dia em que eu e só eu estava amarela. Não havia sol, tampouco chuva, era apenas um dia amarelo e, eu amarela. Era a vez da escolha, era hora de decisão e a minha esteve sempre a leilão, mãos suadas, vacilantes, eu, uma só de facetas múltiplas, angelicais e atrozes, com a garganta alcançaria tudo, mas esta, naqueles dias amarelos, amarelada estava. Eu era assombrada, trazia cargas, pesos, dívidas, arrastava grilhões, mas subitamente abdiquei de tudo não podia conter a adoração por aqueles olhos tão acolhedores, porque a única certeza absoluta sobre tudo aquilo era o sorriso mais lindo que já tinha visto, nem precisaria mencionar que as intuições e recíproca perfeitamente articulada, estava tão perto da utopia, sob uma atmosfera terna. Eu estive perto do que chamamos de amor, eu sabia que ele era uma semente plantada em meio a um campo vasto e fértil, e eu amarela, trajando a mesma pele, vestindo inúmeras faces. Sabe até mergulhar nas próprias entranhas não se é capaz de enxergar-se a si, a vista é turva por isso os olhos correm por todas as direções, como saber qual é a certa? Lembro-me de um momento meus olhos encheram-se de uma visão tépida, era rosa, era uma janela escancarada, mas eu, uma menina amarela. Desde então o vai e vem das ondas de circunstâncias, multicoloriram os dias, e eu estagnei amarela. Olvidei então. Há um oceano entre nós. Caio Fernando me disse que o tempo não se encarrega de apagar desejos e sim de modificar os personagens. A lembrança que às vezes se materializa me diz então, que aquele definitivamente é o sorriso mais lindo que já vi, que reside em um dia rosa, em certo tempo, em certo espaço, interpretando, fabulando, meditando, como um curioso cidadão ateniense e que, observa lá ao longe em meio a um mar de distância, uma menina amarela.
*